Aprendendo com a Líbia

Com a divulgação de um filme de incitação religiosa anti-islâmica (veja abaixo), protestos foram convocados em algumas partes do mundo islâmico. Em Benghazi, na Líbia, a manifestação popular foi acompanhada pela ação armada de uma milícia extremista, Ansar al-Sharia, um dos muitos grupos armados que controlam pequenos feudos na Líbia pós-Kadafi, e deixou como mortos quatro funcionários da representação, incluindo o embaixador dos Estados Unidos, Christopher Stevens.
Mais uma vez evidencia-se como é difícil implantar um estado de direito nos países onde era apenas a força dos governos autocráticos que mantinha a unidade nacional. Estes governos, outrora armados pelas próprias potências ocidentais, a um determinado momento deixaram de ser-lhes úteis, passando então as potências a armar a oposição e a fomentar a derrubada dos ditadores. Derrubar os governos, porém, é a parte mais fácil do problema. O difícil é saber o que oferecer no lugar.
Dividida em tribos que controlam seu espaço com as armas adquiridas no curso da revolução (fornecidas pelas potências ocidentais e pelos países árabes), a Líbia une-se assim ao Iraque e ao Afeganistão como um país sem lei (o Egito reluta em seguir este caminho). Há muitos fazendo esforço enorme para que o mesmo aconteça na Síria, onde apenas uma saída negociada poderia encaminhar o país para uma democracia secular e um período de recuperação e crescimento. 


Receita de ódio religioso

O filme que detonou os protestos contra as representações estadunidenses no Egito e na Líbia foi elaborado por um homem que se denomina israelense-estadunidense, e cujo nome não citarei neste artigo. A produção amadora e de má qualidade, recebida com indiferença em Los Angeles, é completamente insultuosa aos muçulmanos, retratando o profeta Muhammad de maneira completamente ridícula e ofensiva. Foi financiada por 100 doadores judeus não identificados, que doaram ao diretor US 5 milhões para produzir o filme, cujo objetivo é demonstrar que “o Islã é um câncer”. Embora o filme tenha duas horas (que aparentemente poucos tiveram a paciência de assistir), foram os 13 minutos do trailer postado no Youtube que detonaram uma nova onda de protestos islâmicos contra os Estados Unidos. A mesma vigilância que proíbe filmes da jihad islâmica ou dos supremacistas raciais, no entanto, não foi capaz de proibir um filme que é evidentemente uma incitação ao ódio religioso, e que certamente irá provocar ainda maiores protestos à medida que seja replicado em todo o mundo islâmico. 

Um comentário:

André Gattaz disse...

Novas informações sobre o autor do filme: aparentemente trata-se de um cristão copta californiano, que se escondeu sob uma identidade falsa atribuindo-se origem israelense. Ainda não está claro, no entanto, (se é que algum dia estará) quais os interesses por trás da elaboração do filme. O objetivo, entretanto, mais do que ofender o Islã e seu profeta, parece ter sido o que foi alcançado: semear a discórdia entre a "rua" muçulmana e o ocidente e seus prepostos.